Após trocar Maricá por Manaus, destaque na Rio 2016 sofre para driblar saudade

A saudade apertou, e Anne Marcelle contava os dias para voltar para casa. Na Rio 2016, a atleta se tornou a primeira brasileira (no masculino ou feminino) a alcançar as oitavas de final do tiro com arco em Jogos Olímpicos. Sem patrocínio na sua cidade natal, Maricá, a atleta precisou deixar a família e se mudar para Manaus em busca de estrutura. Os últimos dois meses e meio não foram fáceis para essa jovem de 23 anos, mas o destino encurtou o tempo longe de casa. Ane retornou ao Rio de Janeiro para disputar o Campeonato Brasileiro de Tiro com Arco, que será justamente em Maricá, desta terça a domingo. E foi recebida com festa pelos amigos e familiares.

– Foi maravilhoso. Eu contava as horas e os dias para chegar logo a hora de viajar. No dia que chegou, eu nem acreditei que estava indo para casa. Quando cheguei eles fizeram uma festa. Me receberam e foi muito emocionante.

Com o brasileiro chegando, seu foco está totalmente voltado para a reta final de treinamento. Mesmo sem técnico, que ainda está na capital amazonense com o resto da equipe, Anne treina todos os dias no centro de treinamento em Maricá. No início, não queriam deixar a atleta entrar sem supervisor, mas ela bateu o pé e conseguiu a liberação. Dedicada, a jovem contou que ainda não conseguiu nem mesmo ir à praia, uma das coisas que mais sentia falta durante o período morando fora.

Ane aguarda seus companheiros de equipe em Maricá para a disputa nacional. Seu técnico, Aníbal Fortes, também estará presente. Está confiante e quer conquistar bons resultados nas três categorias que compete: individual, equipes e duplas mistas. Lamenta apenas não representar sua cidade natal.

– Estou focada em ganhar as três medalhas que tenho possibilidade. Estou focada para ganhar isso. Vou fazer de tudo para conquistar essas medalhas, mas vai ser uma pena ganhar para Manaus. Eu pedi ajuda para Maricá, e não veio, então vou disputar essas medalhas infelizmente para outra cidade.

Na capital amazonense, a jovem conta com o apoio do Governo do Amazonas, que proporciona toda a estrutura de treinamento físico e técnico, através do Centro de Treinamento de Alto Rendimento da Amazônia (CTARA), além de acompanhamento médico com uma equipe multidisciplinar. A viagem de volta já tem data marcada, e a atleta terá até janeiro para curtir a mãe, o padastro e o irmão mais velho. Depois de embarcar, não sabe quando fará uma nova visita, por isso cada minuto ao lado deles é precioso.

– Por minha mãe, eu nem voltava mais para Manaus. Ela me prendia em casa e ficava aqui para sempre, mas ela entende que é meu futuro e lá na frente vai valer a pena o esforço que estou fazendo.

Esta não foi a primeira grande mudança na vida de Ane Marcelle. Há alguns anos, a menina deixou o Rio de Janeiro e a comunidade que morava na Tijuca, Zona Norte da cidade, com sua família por conta da violência. Escolheram Maricá como nova casa e foi lá que descobriu o dom para o tiro com arco. Tudo começou quando foi ao clube buscar o irmão, que já praticava o esporte. Depois, Dirma Miranda, técnica dos arqueiros, disse que precisava de meninas. Foi aí, em 2009, com 15 anos, que Anne deu os primeiros passos na modalidade.

Começou a competir e ganhar as primeiras medalhas. Foi para o Mundial na Polônia, onde ficou em 54º lugar. Faturou o Sul-Americano no Chile e o Prêmio Brasil Olímpico de melhor atleta do ano em 2011. Em 2014, foi campeã sul-americana, brasileira por equipe e terminou em segundo lugar no Brasileiro individual. Entre as principais conquistas, o bronze no Campeonato Pan-Americano de 2014, em Rosário, na Argentina, e o melhor resultado de um brasileiro em Jogos Olímpicos em 2016, quando chegou nas oitavas de final.

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