04/10/2018 às 12h32min - Atualizada em 04/10/2018 às 12h32min

Artesão, morador de Maricá, faz primeira exposição em galeria da Zona Sul, no RJ


Um par de sapatos velhos, aros de bicicleta, peças de eletrodomésticos e computador, pés de cadeira, secador de cabelo, controles remotos e varetas de guarda-chuva. Tudo isso era sucata que iria para o lixo. Mas, nas mãos do artesão Raphael Cavalcanti, de 67 anos, viraram arte. Essa é a matéria-prima para as cerca de 40 esculturas que compõem a exposição “Imperdíveis Reciclados” que será aberta nesta sexta-feira, no Galpão das Artes, na Gávea, na Zona Sul. O trabalho do morador de Maricá ganhou visibilidade e gerou o convite para a mostra, que continuará em cartaz até dezembro, depois de o artista ter sido descoberto em junho pelo jornal EXTRA vendendo suas peças numa banca nas ruas do Centro do Rio. — Minha principal preocupação era vender as peças nas ruas e ganhar o meu dinheirinho. Nunca trabalhei pensando em expor, até porque sei das dificuldades que enfrentaria. Já chegaram a me sugerir isso, mas acreditava que não seria fácil abrir as portas das galerias para mim. A diferença agora é que fui convidado — contou o artista. Como o trabalho do artesão era voltado para o comércio nas ruas, onde priorizava peças menores e de fácil venda, ele precisou se dedicar nos últimos quatro meses à elaboração de esculturas novas e exclusivas para a exposição. São obras maiores e com melhor acabamento, visando o público mais exigente da galeria. Todas as peças têm o mesmo tratamento visual, num tom que mescla o dourado com o preto, deixando as esculturas com um aspecto vintage. Uma das que mais chamam a atenção é uma máquina fotográfica de lambe-lambe ( como eram conhecidos os fotógrafos que exerciam suas atividades em espaços públicos, no passado) feita com um aparelho de TV de 10 polegadas, um secador de cabelo, controle remoto, peças de forno micro-ondas e uma tomada sem os pinos. Para montar a escultura de uma plataforma de petróleo, o artista recorreu a pés de geladeira, peças de videocassete, placas de computador e arame de guarda-chuva. Um gramofone foi feito também com uma TV de 10 polegadas, disco de vinil e o fundo de uma massa de paredes. — Ganho muita coisa de pessoas que conhecem o meu trabalho. São objetos que elas jogariam fora, por estarem quebradas, com defeito ou não terem mais utilidade. Não recuso nada. Meu único gasto é com a tinta e ainda assim eu mesmo que a preparo, utilizando goma laca, álcool e purpurina — disse o artista, aposentado de uma companhia de seguro, que há dez anos começou com o artesanato como hobby e hoje tem nas peças vendidas em bancas no Centro e na Zona Sul o seu principal ganha-pão. O local onde Raphael Cavalcanti vai expor o seu trabalho é uma galeria criada pela Comlurb há 16 anos, embaixo do viaduto da Auto Estrada Lagoa-Barra, para abrigar exposições de artistas que utilizam o lixo como matéria-prima. O patrono do espaço é o arquiteto, artista plástico e designer Helio Guimarães Pellegrino, considerado um visionário na arte da reciclagem no país. Entre os artistas que já passaram por lá estão Sérgio Marimba, que também é cenógrafo; Alfredo Borret, conhecido por transformar tampinhas de metal e arte sustentável; além do próprio Pellegrino. Normalmente são abertas duas exposições ao mesmo tempo: uma de um artista conhecido e outra de um convidado que está sendo lançado. No caso, do artesão de Maricá, ele dividirá a galeria, em espaços distintos, com os trabalhos da artista plástica Cida Mansur, que produz suas pinturas, texturas e instalações a partir do lixo. A mostra se chama “Asas da imaginação”. Além dessas duas, a galeria já tem pelo menos quatro exposições agendadas para o ano que vem. Para a coordenadora do Galpão das Artes, Ana Cristina Damasceno, a importância de trabalhos destes artistas está em utilizar a arte para dar dignidade ao lixo — Somos um polo catalisador de artesãos que utilizam o lixo como matéria-prima. O Galpão também é uma forma de mostrar ao público a diferença do reaproveitamento (como o trabalho dos artesãos que transformam as sucatas em arte) e a reciclagem (que é a transformação do lixo através de um processo de industrialização). O espírito do reaproveitamento está inclusive no espaço que ocupamos, debaixo do viaduto — explicou Ana Damasceno. Serviço: Mostras “Imprevisíveis Reciclados” e “Asas da Imaginação” Abertura: 5 de outubro, das 19h às 22h Visitação: 8 de outubro a 21 de dezembro, de segunda a sexta-feira Local: Galpão das Artes Urbanas Helio G. Pellegrino Endereço: Avenida Padre Leonel Franca, s/nº, Gávea (sob o Viaduto Lagoa-Barra) Entrada gratuita
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