Paciente baleada dentro de Hospital em Niterói, moradora de Maricá, pode ficar cega


Internada no Hospital Santa Martha, em Santa Rosa, Niterói, desde o último dia 23, a idosa Leda Maria Castro dos Reis, de 61 anos, que foi atingida na cabeça por uma bala perdida dentro da unidade de saúde, na madrugada de ontem, pode perder a visão do olho direito. Ao longo de ontem, ela permaneceu com a bala alojada na cabeça, enquanto aguardava resultados de exames para que os médicos decidissem se era seguro realizar uma cirurgia para retirada do projétil.

De acordo com investigações iniciais, a idosa foi atingida durante um confronto entre traficantes do morro Souza Soares e policiais militares do 12ºBPM (Niterói), que foram à comunidade para impedir a realização de um baile funk, que acontecia na Rua Mário Vianna, principal via de Santa Rosa e um dos acessos ao morro Souza Soares.

Segundo informações, a idosa estava deitada em seu leito, no quarto 306, quando foi atingida pelo disparo, que atravessou a esquadria da janela e chegou a quebrar os óculos da paciente. No momento da fatalidade, Leda estava acompanhada da filha, que se desesperou ao ver a cena. A idosa é  moradora de Maricá e trabalha como auxiliar de serviços gerais.

“Minha irmã não ficou ferida, mas está muito abalada ao ver o que aconteceu com nossa mãe. Ela estava em pé, uns quinze minutos antes do fato, mas quando foi atingida já estava deitada”, contou o filho da vítima, que chegou na unidade de saúde por volta das seis da manhã e ainda escutou o som do baile funk, que voltou a acontecer depois da saída dos militares. A festa, patrocinada pelo tráfico, teria rolado até a manhã de ontem, segundo moradores da região.

Acompanhantes de outros pacientes contaram que o som permaneceu bastante alto ao longo de quase toda madrugada.

“O DJ do baile ficava pedindo para que os criminosos parassem de atirar. Pedia que eles respeitassem os moradores da comunidade”, contou o filho de uma outra paciente.

Saúde – Leda foi ao hospital tratar um problema na região da vesícula. A idosa também se recupera de uma cirurgia realizada na coluna. Contudo, apesar da perda de visão, a paciente está lúcida, conforme informações da família. Em nota, a assessoria de imprensa da unidade informou que a paciente encontra-se em observação.

Processo – O filho da vítima, um programador, de 41 anos, contou que não pretende transferir a mãe para outro hospital, nem processar a unidade de saúde. Segundo ele, os profissionais do local estão prestando um ótimo atendimento. “Ela já estava sendo muito bem tratada mesmo antes de tudo isso acontecer. Não somos nós que temos que sair para os criminosos ficarem. A gente não tem mais nenhuma segurança em Niterói. Em ano de eleição presidencial, como vou dar o meu voto para alguém se não sei se vamos sair e voltar vivos”, desabafou.

“O hospital eu não vou processar, mas o Estado é uma coisa que vamos pensar”, complementou o homem, que mora no Fonseca, enquanto sua mãe é moradora de Maricá.

Tráfico – Não bastando a ousadia de recomeçar o baile funk depois da saída dos militares da comunidade, os criminosos do Souza Soares mantiveram seus ‘olheiros’ de plantão na área de mata do morro, vigiando a movimentação da entrada da comunidade e do pátio do hospital. Nem a presença da imprensa, que buscava informações sobre a vítima baleada, inibiu os criminosos que permaneceram no local ao longo de toda a manhã.

Operação – A ação da polícia militar começou no início da madrugada. Segundo depoimentos, logo ao perceberem a presença dos policiais, os criminosos iniciaram um intenso confronto. Os militares conseguiram aprender drogas e no momento que estavam registrando a apreensão na 77ª DP (Icaraí) foram informados da vítima.

Na manhã de ontem, a equipe da Polícia Civil realizou perícia na unidade de saúde e colheu depoimentos dos policiais militares envolvidos no confronto.

Geografia – Localizada entre as comunidades da Souza Soares, Zulu e Vital Brasil, a unidade de saúde já foi alvo da violência dos criminosos outras vezes. No início do ano, uma bala perdida atingiu uma janela da unidade. Em 2016, o tiro atingiu a parede do setor de ultrassonografia. Nos casos anteriores, ninguém ficou ferido.

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